quinta-feira, setembro 30, 2010

Benfica e o IVA - Pedro S. Guerreiro

Quarta-feira, oito da noite, hora de pico de audiência. Tenho dois televisores à frente: os olhos no Benfica, os ouvidos no Conselho de Ministros. De um lado, o Benfica transpira. Do outro, transpiramos nós. Sócrates apresenta as medidas de austeridade.

Ontem foi um dia estranho para os portugueses. (Toque de calcanhar de Luisão, bola ao lado). Como pensar em futebol se nos aumentam os impostos? Se pagaremos mais IVA, se receberemos menos IRS, se as pensões não sobem, se perdemos abono de família? (Golo do Schalke! Não: anulado...). O futebol vê-se para lembrar o jogo, não para esquecer o resto. O desporto não é bebedeira, é celebração. (Saviola remata! Ao lado... Raúl remata... Ao poste!)

Ontem, enquanto o Benfica jogava, os funcionários públicos perdiam parte do seu salário. Uns nada, outros 3,5%, alguns 10%. Em média, um corte salarial inédito de 5% (Sai Saviola, entra Aimar. O jogo está chocho), é quase como receber 13 salários a partir do próximo ano em vez de 14. Mais: é a promessa de que a economia que mal se erguera vai de novo afundar.

O ano de 2011 será o cabo das Tormentas para a economia portuguesa (Golo do Schalke 04, Farfán. Mau...). Acordámos do sonho irreal em que vivemos, gastando de mais e produzindo de menos (2-0, golo de Huntelaar...). E o conforto que os Governos nos foram dando de que estávamos a recuperar foi a música mentirosa para os nossos ouvidos.

São já 21.30. As conferências de imprensa acabaram, o jogo também. Foi uma má noite para os benfiquistas. Mas também para os sportinguistas, portistas, academistas e todos os artistas tributados deste país. Abro a página online do Record: “Benfica não soube matar e morreu no final”. Exatamente como a crise, que o Governo não soube matar no início e que nos mata no final. Vamos à próxima jornada.

Assistência e golaço de Éder Luís

quarta-feira, setembro 29, 2010

Um grito na relva - Luís Freitas Lobo

Quando um jogador alterna tanto o seu nível exibicional, entre "a luz e a sombra", acaba quase sempre por ser a 'sombra' a dominar a ideia que se tem dele. Durante muito tempo, penso que foi esse 'lado lunar' mais forte que dominou a carreira (e o jogo) de Carlos Martins, um temperamental por natureza, um talento por vocação. Chegou a ser visto quase como um 'caso perdido'. O Sporting (Paulo Bento) desistiu mesmo dele.

O aproximar da idade da razão futebolística (que situo entre os 26/27 anos) deu-lhe outra visão sobre o mundo e o futebol. Carlos Martins continua, claro, temperamental (reclama furioso por uma falta a meio-campo da mesma forma que grita contra um penalti no último minuto), mas o seu talento tem hoje, em campo, uma estrada tática e emocional mais equilibrada. No Benfica, tem o problema tático de muitas vezes jogar descaído de mais para um flanco. Como o talento, porém, aparece sempre em qualquer cenário, seja na luz ou na sombra, durante o jogo só resta esperar vê-lo surgir no melhor local (e momento).

Os melhores jogadores usam "relógio" - Luís Freitas Lobo

Este é dos momentos mais solenes para uma equipa de futebol e seus jogadores. A preleção do treinador antes do início do jogo. Será nesse espaço sagrado que começa a nascer o seu jogo e motivação. Ganhar coragem para atacar ou criar resistência para defender. É esta dicotomia defesa-ataque que acaba, muitas vezes, por ser mais confusa. Porque um dos piores sinais que uma equipa pode dar é quando, no final, se elogia apenas um desses fatores. Nasce assim a tal 'equipa defensiva' que parece só pensar em fechar a baliza ou o onze forte a atacar mas sem rigor a defender. Esta avaliação por compartimentos estanques também se aplica, muitas vezes, aos jogadores. Não faz sentido.

Conta-se que, um dia, quando um treinador chamado Hugo Arduzzo - personagem entre o real e o imaginário -, então no banco do recôndito Parejas FC, disse, empolgado, nessa preleção, que queria mais ambição, a jogadores a quem antes apenas pedia esforço, todos eles ficaram meio assustados. Gritava sobretudo com os defesas, queria que esquecessem as posições e, quando recuperassem a bola, saíssem como flechas para o ataque. Depois de algum silêncio, um deles, por fim, atreveu-se a perguntar: "Ok, mister, é uma boa ideia, mas... a que horas voltamos?"

Aquela equipa (jogadores) não estava preparada para pensar o jogo dessa forma. Unir defesa e ataque, ataque e defesa, controlar ritmos e timings do jogo. Ou corria de mais ou ficava quase parada. Ou seja, em campo, jogava sem 'relógio'. Por isso, a importância das chamadas 'transições', o momento em que os jogadores mudam o chip defensivo para o ofensivo e vice-versa.

Esta é a forma ideal de perceber o estranho caso do futebol de Fábio Coentrão que, mesmo passando, no último jogo contra o Sporting, para extremo-esquerdo continuou, em campo, a ser o melhor defesa-esquerdo da equipa, a sua posição anterior. O enigma resolve-se com a correta utilização do chamado 'relógio das transições' que, naquele jogo específico, tinha a nuance estratégica de travar o mais cedo possível (entenda-se o mais adiantado possível no relvado) o defesa-direito do Sporting muito forte a... atacar. João Pereira, claro. Estes dois jogadores sabem sempre a 'hora certa para voltar'.

Depois de observar Coentrão, sigam Varela no onze do FC Porto. Além de saber atacar e recuar quando a equipa perde a bola para fechar o seu flanco, o que mais impressiona ver no seu jogo é como quase parece parar em corrida. Esta última parte da frase parece um paradoxo. Pura ilusão. Como é, afinal, o jogo ilusionista de Varela que, quando avança com a bola, sabe sempre o timing certo de travar, a chamada temporização com a bola nos pés (como se parasse o tempo) e, em curtos segundos, voltar a decidir o que fazer, arrancar outra vez ou procurar jogar mais para zonas interiores. Além de um 'relógio', tem também uma 'bússola' em campo.

O ideal numa equipa é conseguir estender esta ideia à maioria dos seus jogadores. A melhoria do jogo do Benfica (vista contra o Sporting) passa muito por esse fator, sobretudo quando perde a bola e os jogadores têm de 'voltar' para defender (a tal transição defensiva). Depois, quanto maior for a velocidade com que faz essa transição, mais eficaz se torna em todo o jogo.

Tudo isto pode parecer uma análise demasiado técnica, mas basta seguir jogadores como Fábio Coentrão e Varela para perceber a reação assustada do jogador de Arduzzo. Porque não é fácil ter, no relvado, essa noção temporal dentro da vertigem (física e emocional) de um jogo. Por isso, os melhores jogadores são os que usam 'relógio'. Não são muitos no nosso campeonato, mas quando aparecem decidem os jogos.

Retrato a la minute - José António Saraiva

Seis jornadas após o início do campeonato, já é possível esboçar um retrato das principais equipas.

O FC Porto joga coletivamente pior do que no tempo de Jesualdo Ferreira, mas mostra uma grande consistência defensiva. E, como tem três jogadores à frente que resolvem jogos, pode jogar mal e ganhar. Isto vai acontecer muitas vezes neste campeonato.

O Benfica está na situação oposta: pode jogar bem e perder. Porque não tem ninguém que resolva jogos sozinho, e o seu único goleador, Cardozo, é de uma exasperante irregularidade: falha oportunidades incríveis. Contra o Sporting teve cinco golos nos pés e marcou dois, contra o Marítimo teve três e não marcou nenhum.

O Sporting vive uma situação angustiante: ninguém sabe o que esta equipa vale. Enquanto o FC Porto e o Benfica já mostraram como jogam, o Sporting ainda é um enorme ponto de interrogação. Não tem um padrão de jogo, é capaz do melhor e do pior, é impossível saber o que vai sair dali.

Finalmente, o Sp. Braga. Que tem um futebol manhoso, que lhe permite ir somando pontos como quem não quer a coisa. Nesta equipa, cada pedra tem um papel bem definido – e as pedras podem mudar mas o coletivo aguenta-se. Do ano passado para este o Braga perdeu muitos jogadores, mas mantém o mesmo rendimento, o que é notável.

Resta uma nota para as arbitragens. É claro que o Benfica foi prejudicado até hoje e o FC Porto foi beneficiado. Mas, independentemente disto, é indiscutível que o Porto tem a equipa mais sólida. Enquanto o FC Porto se assemelha a uma rocha, a do Benfica é um campo de flores. Já agora, o Sporting faz-me lembrar areias movediças e o Braga parece um rio traiçoeiro.

Schalke 2-0 Benfica Não Saber Matar, Significou Morrer no Final


segunda-feira, setembro 27, 2010

Foi só um mas foi do Fabito - Marta Rebelo

Sábado, 19h15, entramos no Barreiros em 4x4x2. Quando é que acreditamos nos triângulos de meio-campo e ataque, e teríamos um Carlos Martins mais ofensivo e eficaz, menos perdido? Apostamos tudo nas alas, aquelas que perdemos e só agora começa o reencontro, com Gaitán a agigantar-se, mas à direita! Se tivemos ala-direito, as necessidades da esquerda destituem-nos de um dos melhores defesas-esquerdos do Mundo, que faz o corredor até à assistência na área com a força da juventude e garra, para o colocar a lateral. Contra o Marítimo o barro colou à baliza, e o meu Fabito fez-se goleador! Mas o preço é demasiado penoso: César Peixoto na defesa esquerda. Sim, repito-me, mas Peixoto não tem calibre para este Benfica. É um remendo, e só se remedeia quando não se previne. Salvio prefere a ala direita. E Jara? Serve para a esquerda? Contra o ataque do Braga não podemos remendar o corredor esquerdo, seja atrás ou a meio-campo. Fabito deve regressar ao seu berço, que aquele ataque não é para brincadeiras. E na ala? Permanece a questão.

Entramos com o segundo equipamento. O nosso treck record com a vestimenta suplementar é de má sorte. E a estrelinha, de facto, não brilhou. Porque a basculação ofensiva foi pujante, mas o desperdício frustrante. Tacuara não é infalível nem intocável. É tempo do paraguaio saber que tem de fazer para ganhar o lugar. A quem? A Kardec. Na primeira metade, não largámos a baliza de Marcelo. Aos 12’, aos 16’, 18’, aos 22’, 24’, aos 27´ e 29´, aos 31’. E só aos 39’ há perigo dos do Marítimo, com Roberto a voltar às defesas de aviário com um soco em mau alívio, que não deu golo porque defendeu a recarga. Na segunda parte Cardozo falha sem vergonha aos 50’ e aos 53’. E aos 58’ veio o tento merecido pelo menino de ouro do nosso Glorioso. Há muito que Fábio merecia marcar. Foram mais de 20 remates.

O ano passado demos 5. Este ano demos prejuízo. Mas vencemos! Segue-se a Champions… e o SCB.

Especial Roberto

Benfica vence Supertaça António Livramento

Coleccção Benfica 50 Anos

domingo, setembro 26, 2010

O anti-Robson - Domingos Amaral

From: Domingos Amaral

To: André Villas-Boas

Caro André Villas-Boas

Lá diz o provérbio popular que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo. Quando chegaste ao Estádio do Dragão, no discurso de apresentação, e na tentativa de romper com a sombra tutelar de José Mourinho, disseste que, a ser clone de alguém, o eras de Bobby Robson, e não do teu mentor português.

Ora, não foi preciso correr muito tempo para todos verificarmos que, infelizmente para ti, não é verdade. Podes falar inglês e ter o nariz grande, como dizias, mas nas atitudes não segues a escola do gentleman que Robson sempre foi. Em vários anos em Portugal, fosse ao serviço do Sporting ou do FC Porto, nunca o ouvi atacar os clubes adversários, ser provocatório ou acintoso. Era sempre correto e educado, e não perdia o seu tempo a lançar farpas aos outros clubes. Tu, pelo que vejo, vais por outros caminhos, e fazes uma marcação homem a homem, palavra a palavra, a tudo o que o Benfica diz ou faz. Pelos vistos, andas nervoso, e não perdes uma oportunidade para a provocação.

Em vez de te manteres alheio à polémica específica do Benfica com as arbitragens, não resististe e lá vieste perguntar se o Benfica tinha “vergonha de pedir a repetição do jogo Benfica-Guimarães”. É assim que caem as máscaras postiças que as pessoas colocam a si próprias para impressionar o povão.

Clone de Robson? Errado. Um cavalheiro como Robson nunca escolheria esse tipo de palavras, esse tipo de caminhos. Podes ser muita coisa, e até bom treinador, mas clone de Robson está visto que não és.

Iniciados: Benfica 5-0 Alverca

quinta-feira, setembro 23, 2010

Mourinho não faz Biscates, mas há quem os faça









Bento discute-se? - Rui Santos

A FPF está fora do enquadramento legal, vigora a suspensão (parcial) do estatuto de utilidade pública desportiva, mas a vida continua porque o que mesmo interessa (agora) é a figura do selecionador.

Ele aí está – Paulo Bento. Uma Federação sem selecionador, mesmo estando em desconformidade com a lei, não é a mesma coisa do que uma Federação com selecionador, mesmo que o “ex” tenha sido ilibado das acusações que lhe foram imputadas por um organismo tutelado pelo Estado, no âmbito de um órgão jurisdicional (disciplinar) da própria FPF.

Não houve dignidade neste processo, que projeta uma certa imagem do país. É assim que (não) funciona o Portugal dito democrático e se acha cada vez mais sujeito às “leis de conveniências” dos lóbis dominantes, nos quais o futebol e a política formam o casal sensação – que nunca passa de moda – da promiscuidade.

Não faz sentido discutir Paulo Bento sem discutir a Federação (em estádio de caducidade). Não faz sentido discutir Paulo Bento sem discutir a relação estabelecida entre o Estado e a Federação. Não faz sentido discutir Paulo Bento sem discutir a matriz do “parque jurássico” sediado na Alexandre Herculano. Não faz sentido discutir Paulo Bento (PB) na base do “caráter” e da “seriedade” como se fez nas últimas horas. Quem julga quem?

Rumo ao Euro’2012, não vale a pena embebedarem-nos com planos e projetos para o futuro. Não há oportunidade para explorar esse filão. Não há tempo.

Paulo Bento pôs-se à disposição da FPF e a FPF, escaldada com as consequências do último contrato realizado com o ex-selecionador, também sabe que o acordo “para dois anos” estabelecido com PB tem o mesmo valor jurídico de um contrato “para dois jogos”.

Oimperativo do bom senso ganha quando não há espaço para outras manobras. Sem sofismas: PB ganha os dois jogos e balanço para um ciclo virtuoso, apura a Seleção para o Euro’2012 e transforma-se (para a opinião pública nacional) num “treinador de elite” ou não ganha à Dinamarca e o pavio da sua declarada “credibilidade” arderá num instante.

Ambas as partes sabem os riscos que correm. A FPF ainda é antes de deixar de ser e faz figura de virgem encantada e orgulhosa; Paulo Bento será o que os jogadores, nesta fase, quiserem. Depende deles, mais do que nunca. E, neste aspeto, ao contrário do que se possa pensar, a conjuntura é favorável: aqueles que colocaram PB na Seleção (e que serão os primeiros a tirá-lo, se as coisas não correrem a preceito -- a lógica de sempre) serão os mesmos a tentar convencer os jogadores de que não há margem de erro e é tempo de dar tudo em nome de uma alegada (mas falsa) “nova ordem”.

Ainda sem sofismas: todos têm de assumir as suas responsabilidades. Pelo passado recente, pelo presente e pelo que aí vem. Políticos, dirigentes, treinadores, médicos, jogadores. Todos. Dando o elementar benefício da dúvida a Paulo Bento, agora na prematura condição de selecionador nacional.

Sálvio: "Estou ansioso por este jogo"