quarta-feira, dezembro 01, 2010

Óscar Cardozo - 100 Golos

Quinze segundos - João Gobern

Para se ser agreste em televisão, sem ficar mal no “boneco”, é preciso experiência, talento, sentido de oportunidade e elegância. Recordo, por exemplar, uma “entrevista” de Joaquim Letria a uma cadeira vazia – aquela em que deveria estar sentado um ministro que, depois de confirmar a presença, “desapareceu” para parte incerta. Lembro, por categórico, o momento em que um líder (já extinto) da Direita portuguesa insinuou perante José Alberto Carvalho que este se limitava a reproduzir perguntas “sopradas” da régie. O jornalista retirou o auricular do ouvido e, daí em diante, deixou o seu interlocutor suar (literalmente) as estopinhas.

No domingo, após o jogo entre Beira-Mar e o Benfica, um “repórter” da TVI – cujo nome propositadamente já esqueci – apresentou a sua candidatura aos famigerados 15 minutos de fama referidos por Andy Warhol. Fê-lo de forma atabalhoada: na “flash interview” com Jorge Jesus, saltou das ocorrências da partida para um alegado “ambiente de balneário” e para um “momento de contestação” ao técnico. Jesus ainda respondeu à primeira. À segunda, soltou o já famoso “então tchau”. Ora tivesse a coisa ficado por aí e passava. Nada disso: balanceado nos seus 15… segundos, o “repórter” decidiu lançar um ataque à Benfica TV (e à opção de o clube antecipar no canal os jogos da Liga) e acabar a proclamar que “ali” é ele quem decide as perguntas. Acontece que não é – e a ignorância da lei não aproveita ao prevaricador. Segundo os regulamentos das “flash interviews” – inventadas para “cobrir” mais uma janela publicitária e para colecionar um “sound byte”, de quando em vez –, as perguntas devem cingir-se ao recém-terminado jogo. Não foi o caso. E não vale a pena a TVI ou algum dos seus responsáveis invocar a defesa superior do jornalismo; quando se tornou compradora das transmissões sabia o que dizia o regulamento. Tal como sabe Sousa Martins que, na noite seguinte, no programa “Prolongamento”, tentou argumentar que ninguém o cumpria. Mau serviço, rapazes. Acredito que seja um caso de ignorância, mais do que de má vontade. Mas foi para situações como estas que se criaram os pedidos de desculpas.

Pior, muito pior, foi o comunicado publicado em nome do FC Porto. O problema não lhe dizia, de todo em todo, respeito. Só uma obsessão guerrilheira justifica o “parecer”, por acaso subscrito por quem também é campeão no “blackout”. Tenho, de resto, a ideia de um diretor de comunicação a insultar e ameaçar um antigo colega da RTP por causa de uma questão mais incómoda – deve ser engano meu… A alusão aos “filmes de gangsters”, vinda de quem vem, evoca diretamente outro género cinematográfico: a comédia. Se tivesse graça, não seria um drama.

Dispensar Jesus?! - José António Saraiva

A meio da semana passada dizia-me um amigo: “É preciso correr com o Jesus. O Mourinho é que nunca falha!”. Ontem tivemos a resposta: de certa maneira, o Barça vingou Jesus, aplicando ao Real Madrid de Mourinho os mesmos 5-0 que o Benfica tinha sofrido do FC Porto.

Um dos grandes problemas do futebol português é a ansiedade das massas associativas e a limitada inteligência de alguns adeptos. Um treinador dispensa-se quando existe a convicção forte de que não poderá dar mais nada à equipa. Se o Benfica tivesse feito uma época passada cinzenta e este ano as coisas continuassem a correr mal, talvez se justificasse a mudança de treinador. Mas fará algum sentido fazê-lo em relação a um técnico que há um ano revolucionou o futebol do Benfica, que foi campeão nacional com algumas das exibições mais brilhantes das últimas décadas, e que agora ocupa o 2º lugar?

É verdade que a equipa tem feito alguns péssimos jogos. Mas a culpa será do treinador? Julgo que não: Jesus já mostrou capacidade para pôr a equipa a ganhar, a marcar e a dar espetáculo. Se há problemas, investigue-se onde eles estão e não se arranje um bode expiatório.

Até porque o despedimento de Jesus só complicaria ainda mais as coisas. O Benfica voltaria ao princípio, à estaca zero, à instabilidade que marcou um período negro. E além disso, quem o poderia substituir? Um estrangeiro de gabarito não viria meter-se num campeonato pouco competitivo. E algum português dá mais garantias do que Jesus para treinar o Benfica?

Dispensar o treinador seria a maior asneira que o Benfica poderia fazer. Terminaria o sonho que na época passada renasceu na Luz.

terça-feira, novembro 30, 2010

Cardozo: as coisas simples e as outras - Luís Sobral

Cardozo é sobretudo um jogador das coisas simples.

Uma cabeçada com boa direcção, um remate seco e forte, um posicionamento correcto para receber e passar e os golos que parecem capazes de ser marcados por qualquer um.

No futebol, já se sabe, o simples é quase sempre muito mais difícil do que parece. Como nem todos o reconhecem, Cardozo é, de um modo geral, menos apreciado do que devia.

No Benfica, apesar disso, costuma notar-se quando o paraguaio está presente. Até porque, em algumas ocasiões, Cardozo faz bem mais do que assinar o ponto.

Foi assim em Aveiro. Primeiro o simples, aquele «penalty» sem esforço. Depois uma fantástica finalização logo no período em que o adversário ameaçava crescer e para acabar uma enorme assistência para o companheiro Saviola, também ele a precisar de regressar aos festejos.

Tudo somado, Cardozo leva cinco golos em sete partidas como titular, na Liga. Não é fantástico, mas está longe de envergonhar.

segunda-feira, novembro 29, 2010

A importância de Ruben Amorim - Luís Pedro Sousa

Oscar Cardozo assumiu-se como o grande destaque da equipa do Benfica, que ontem em Aveiro, fez recordar aos adeptos as exibições da bem sucedida época passada. Os encarnados passaram a ter, afinal, uma solução na área contrária, pois a inocência de Kardec foi substituída pela veia goleadora do paraguaio.

Mas Jorge Jesus procedeu a outra alteração importante. Com Ruben Amorim também a cem por cento, o treinador do Benfica confiou-lhe o lado direito do meio-campo. Como se da era Ramires se tratasse, os encarnados apresentaram poder de choque, recuperaram facilmente a bola no miolo, patenteando, enfim, uma coesão que o outrora desprotegido Javi García só pode agradecer.

O problema do flanco direito do Benfica está resolvido. Pelo menos até que um eventual impedimento de Maxi Pereira ou Ruben Amorim transporte os encarnados para um passado recente.

"Então tchau" - Marta Rebelo

Cardozo! As saudades do Tacuara fizeram-se sentir pelos pés infelizes do seu substituto destas semanas, Kardec. Aqueles dois golos e meio, dando a outra metade a Saviola, fizeram de Cardozo o herói da partida com o Beira-Mar.

Era um jogo de tudo ou nada, mata-mata, amor ou ódio entre treinador e benfiquistas, depois da vergonha com o Hapoel. Mas só houve reconciliação entre equipa e adeptos. Não sou terrorista e venho apregoando a estabilidade, mas já me sobram poucas dúvidas: o Glorioso é muito maior do que JJ. Assim que se apanhou a ganhar por 3-0, Jesus mexeu logo na equipa para fazer entrar os suspeitos do costume desta época. Este mister, ou não percebe nada de psicologia de massas e não lê os adeptos, ou está convencido que a sua teimosia compensa: a 15’ do fim, troca Cardozo por Kardec… será que estava surdo há 15 dias, quando o capitão Nuno Gomes jogou 5 minutos, marcou e a Luz chorou com ele? Esqueci-me… ele, Jesus, é que sabe. Por isso é que já com Salvio a jogar e Jara quase a entrar, sofremos o único golo dos aveirenses.

O presidente afirma que o Benfica conta é com Jesus, mas já lhe cortou as pernas às desculpas: “Jesus tem a equipa que pediu”, disse Vieira esta semana. A verdade é esta: JJ queimou David Luiz e Saviola, de vez, no Dragão. Saviola, sem explicação possível, nem jogou. Lembram-se do “Caracoleta” de gatas, a tentar apanhar Hulk? A humilhação incapacitante que não terá sido colocá-lo com tamanha tarefa na lateral esquerda, onde o mister sabe, e todos sabemos, que David Luiz não rende? Mas se o vendermos no mercado de inverno perdemos, no mínimo, uns 10 milhões.

A festejar os golos de Aveiro estiveram abraçados 10, mais Roberto ao longe, e ninguém partilhou um aceno com o banco. A culpa está muito longe de ser só sua, mas a tática e o onze são. Jesus, “então tchau”.

O Grande Líder - João Bonzinho

Qualquer benfiquista que olhe para o jogo do Benfica em Telavive apenas com olhos para esse jogo não pode de deixar de se sentir acometido por uma estranha mas genuína sensação de pena de Jorge Jesus. Mais do que dos jogadores.
Hoje, é Jesus o homem destinado a crucificar-se, e se qualquer benfiquista olhar, portanto, para o jogo de Telavive como o único jogo desta história, então não pode mesmo deixar de se imaginar na pele do treinador benfiquista: mas como é que foi possível perder este jogo por 3-0?
Coitado de Jesus; só lhe faltava mesmo ver-se associado a essa terrível lei de Murphy, segundo a qual «se algo se prevê que possa correr mal, então correrá ainda pior». Mais ou menos isto.
Digam lá, os benfiquistas, com franqueza: não sentiram a mesma estranha mas genuína sensação de que algo poderia correr mal no Estádio do Dragão? Pois correu ainda pior.
E desta vez: não terão sentindo, lá no fundo, a mesma estranha mas genuína sensação de que algo poderia correr mal em Israel? E, sinceramente, o que seria correr pior?
Apesar de apregoar, no início da temporada, ter a melhor equipa e a convicção de que o Benfica seria esta época bicampeão nacional, Jesus parece hoje, apenas três meses volvidos, um treinador destroçado, com muito menos alma e visivelmente mais descrente.
A equipa não podia ter começado pior o campeonato, mostrou relativamente cedo ter perdido boa parte da identidade vencedora que a levou ao título e, o que sempre me pareceu mais preocupante, foi perdendo espírito. Por falar em espírito e traduzindo o espírito da manchete de ontem de A BOLA faz realmente sentido perguntar: a equipa não pode ou… já não quer?
Para quem está de fora, é difícil, muito difícil acreditar que não haverá nenhuma razão de fundo para o Benfica ter mudado tanto do título para agora. É difícil.
Perguntarão: mas Jorge Jesus deixou de ser o bom treinador que a grande maioria reconheceu, sobretudo, na última temporada?
Como posso duvidar das qualidades técnico-tácticas de Jesus? Não posso. Mas posso duvidar de todas as outras. Diz Jesus: «De futebol sou eu catedrático.» Acredito. De tácticas, quererá dizer. Mas, desculpem lá o regresso do lugar-comum, um treinador de futebol é hoje muito mais que um treinador; é treinador, gestor de recursos humanos, comunicador, líder, confessor e conversor, manipulador e defensor; tem de contagiar, motivar, emocionar, congregar e confiar, ser eticamente solidário e tolerante, e, por fim, ser responsável, afirmativo e claro nas regras que impõe e na exigência que define.
Em qual destes aspectos mais será Jesus catedrático?
Já alguém ouviu o treinador do Benfica partilhar o sucesso com alguém da sua equipa técnica?
E alguém o ouviu assumir por inteiro a responsabilidade de uma única que fosse das oito derrotas que a equipa já soma nos 18 jogos oficiais que leva nesta temporada?
Jesus sabe de futebol? Saberá certamente, e talvez muito. Jesus é um bom líder? Infelizmente para ele e para o Benfica, parecem evidentes os sinais de que não será. E sem um bom líder, nenhuma equipa de futebol pode aspirar a ser verdadeiramente grande!

domingo, novembro 28, 2010

José Mourinho e Cristiano Ronaldo - Miguel Góis

Confesso que, em momentos de maior debilidade psicológica, tenho assistido a jogos do Real Madrid com o único propósito de ver um jogador que na época passada alinhava no Benfica a vencer uma partida de futebol. Hoje em dia, é um luxo que não dispenso. Acresce a este prazer, a curiosidade em assistir ao desempenho de José Mourinho e Cristiano Ronaldo, dois portugueses extremamente profissionais, ambiciosos e competentes. É, aliás, possível que o Mundo esteja a ficar com uma ideia ligeiramente errada sobre como são os portugueses. Por sorte, Manuel Cajuda também se encontra a trabalhar no estrangeiro, se não podíamos estar perante um equívoco irreversível.

Há muito que se percebeu que Cristiano Ronaldo é viciado em vitórias Mas, esta época, em Madrid, o jogador encontrou o seu dealer: José Mourinho. E não podia ter vindo em melhor altura: como passou o Verão a ser treinado por Carlos Queiroz, é provável que Cristiano estivesse já numa fase muito adiantada da desintoxicação.

Dito isto, quando imagino uma palestra de Mourinho no Real Madrid, não consigo evitar lembrar-me da cena em que o druida de Asterix distribui a poção mágica pelos gauleses. Calculo que, por razões óbvias, Cristiano Ronaldo esteja dispensado de ouvir as palavras de motivação do treinador. Ainda assim, depois de muita insistência por parte do jogador, Mourinho deve dizer-lhe: “Tu não precisas, Cristiano. Já te esqueceste que caíste num caldeirão de ambição, quando eras pequeno?”

Maus negócios - Domingos Amaral

From: Domingos Amaral

To: Luís Filipe Vieira

Caro Luís Filipe Vieira

O dramaturgo Oscar Wilde disse um dia que “o dinheiro não traz felicidade, compra-a”, verdade que não se verificou, este ano, no Benfica. A abundância, em vez de remédio, tornou-se um veneno. De nada valeu, como o sr. disse, ter “a equipa mais cara de sempre”. Subiu demasiado as expectativas, o que só aumenta a frustração atual.

Seis meses depois, são evidentes os maus negócios. As contratações de Roberto e Jara, e provavelmente de Gaitán, custaram de mais e provaram de menos. A renegociação com Jesus tornou-se também um profundo desapontamento. No início da época passada, ele prometeu que a equipa ia jogar o dobro. Assim aconteceu. No final do ano, já campeão, quis ganhar mais, e acenou com o fantasma do FC Porto, que supostamente o queria contratar. O senhor assustou-se e foi na conversa. Aumentou-o e assistiu, pasmado, a um estranho fenómeno: a equipa entrou em colapso. Estranho paradoxo: o treinador é aumentado para o dobro e passa a render metade.

Para mais, há um rumor perturbador, que nunca foi desmentido. Conta-se que os jogadores se revoltaram porque os prémios por terem sido campeões eram infinitamente menores que o do treinador. Não sei se é verdade, mas se for, talvez explique o apagão geral de Maxi, Luisão, David Luiz, Javi García, Saviola, Aimar, Cardozo, e o mal-estar entre eles e o treinador. Money rules the world…E agora? Olhe, resista à depressão, cerre os dentes e obrigue-os a lutar até ao fim. Mau negócio mesmo é nem ficar em 2.º lugar.

sábado, novembro 27, 2010

Greve Geral Vermelha - Luís Seara Cardoso

Que Benfica foi aquele que jogou em Israel? Que Benfica foi aquele que se deixou bater por um adversário sem categoria internacional? Que Benfica foi aquele que se deixou arredar num jogo decisivo da próxima fase da Liga dos Campeões? Como foi possível semelhante desastre?

Já há duas semanas, noutra partida de capital importância, o Benfica vergou ao peso da mais cruel derrota de sempre no reduto do FC Porto. Que se passa com este Benfica, oito vezes derrotado em 18 jogos realizados? Que se passa com este Benfica, tão poderoso e exclamativo no ano anterior?

O começo da temporada foi muito atribulado, jogadores houve que chegaram a conta-gotas em virtude do Mundial? Saíram duas unidades influentes? São razões bastantes para o Benfica, esta época, se exibir de forma tão pouco convincente, tão amedrontada, tão perdedora? Claro que não. Seguramente, outros motivos haverá. E, muitos deles, só podem ter a ver com o interior do grupo.

Como vai ser o futuro, prognosticado em novembro? Doloroso, ao que tudo indica. A menos que qualquer coisa de extraordinário aconteça. Ainda há objetivos, ainda há muito a defender e a conquistar. Mas também há muito a mudar, também há muito a corrigir. Uma coisa é certa: no curto espaço de meses, o Benfica deixou de ser um conjunto de futebol sedutor para se transformar num conjunto apático. E a competição não perdoa tão brutal metamorfose...

sexta-feira, novembro 26, 2010

David Luiz, Vieira e Jesus - António Magalhães

O menino de oiro do Benfica tornou-se um problema para Luis Filipe Vieira e Jorge Jesus. De pilar da equipa e “negócio da China”, David Luiz passou a jogador instável e ativo desvalorizado. As consequências foram drásticas do ponto de vista desportivo e financeiro: o Benfica ficou fora da Champions e deixou de encaixar uma verba de monta que decorria não apenas desse apuramento mas também das mais-valias que os milhões que havia quem estava disposto a pagar agora já baixou a parada.

Jesus e Vieira podem ter muitas razões de queixa de David Luiz, mas o jovem central brasileiro não pode funcionar como bode expiatório do ocaso benfiquista. Não é só o facto da cabeça de David Luiz estar nos milhões que podia estar a ganar que explica o insucesso que corresponde a 8 derrotas em 18 jogos. Convém que Vieira e Jesus façam também o seu mea culpa e reconheçam as culpas que têm no cartório.

quinta-feira, novembro 25, 2010

Fartos de Jesus, jogadores sofrem "síndrome de Queiroz" - Alexandre Pais

A estrondosa derrota do Benfica frente ao Hapoel pode querer dizer muita coisa e vir ainda a originar, ou a explicar, outras crises. Mas podemos dar já por certo que os jogadores encarnados estão fartos de Jorge Jesus – dos seus métodos, dos seus discursos, das suas simpatias e antipatias, da sua personalidade.

Um futebolista é como outro trabalhador bem pago: não brinca com a profissão que lhe dá uma qualidade de vida muito acima da média. Não se pense, por isso, que seja possivel, a este nível, formar um qualquer complô que tenha por objetivo destituir um treinador.

O problema é que o início da época benfiquista – com a derrota na Supertaça e uma série de resultados menos positivos – não permitiu que o "mar de rosas" da temporada anterior se repetisse na Luz. E o mau começo na fase de grupos da Champions e a desvantagem pontual entretanto conseguida na Liga pelo FC Porto contribuíram para a deterioração do ambiente, dentro e fora do grupo de trabalho. Já não há estado de graça, a recente "advertência" dos No Name, no Seixal, não deixa margem para dúvidas.

O Benfica vive hoje o que se poderia designar por "síndrome de Queiroz", ou seja, passa por aquela fase que a Seleção atravessou em que ninguém regateava esforços mas também ninguém dava aquele "plus" que uma quipa de futebol precisa para fazer a diferença.

Já o escrevi aqui no Record – no passado dia 8, na sequência da goleada sofrida pelo Benfica no Dragão – e o resultado de Telavive confirma-o, infelizmente: chegou ao fim a era de Jesus nos campeões nacionais. Agora, é apenas uma questão de tempo.

Com mais ou menos drama, com mais ou menos desmentidos, o técnico terá de receber o seu gordo cheque e procurar – e seguramente reencontrar – o seu sucesso noutro clube.
É assim a vida. E o espetáculo tem de continuar.

Acabou o mito Jesus - Luís Avelãs

Mesmo tendo tido a sorte de calhar num grupo bastante simpático, sem nenhum “tubarão”, o Benfica não conseguiu qualificar-se para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões. E a triste sentença chegou ainda com uma partida para disputar. Tudo porque as águias foram incapazes de levar de vencida a modesta formação do Hapoel Telavive. Pior: saíram de Israel vergadas ao peso de uma humilhante derrota (0-3) que, conforme confessou o treinador local, nem os próprios adversários admitiam como possível.

Meses depois de ter conquistado o título nacional - e de ter mostrado um futebol vistoso e eficiente -, a equipa do Benfica é, hoje em dia, bastante diferente. Para pior. Para muito pior. E se são os jogadores que fazem os resultados dentro do campo, convém não esquecer o “dedo” dos treinadores. Jorge Jesus foi endeusado quando colocou os encarnados a jogar “a sério”. Agora, no entanto, parece claro que não será um inquilino para durar muito no banco. E tudo porque, num ápice, a sua boa estrela desapareceu. Agora, quase que invariavelmente, as opções saem furadas, as substituições não ajudam e, mais grave, dá a ideia que os jogadores já não absorvem a mensagem, nem sequer entendem algumas (várias) das suas decisões. Aliás, também dirigentes e cada vez mais adeptos se interrogam perante determinadas atitudes do técnico.

O Benfica abandona a “Champions” depois de perder os três jogos fora. Longe da Luz, mais do que serem invariavelmente derrotados, os encarnados nem um golito marcaram. Com Lyon e Schalke longe do fulgor dos últimos anos (os franceses são oitavos e os alemães 15.ºs nos respectivos campeonatos), nem assim os portugueses foram capazes de, pelo menos, empatar uma partida. E se o registo já estava mau, na quarta-feira raiou o absurdo quando se deu a catástrofe em Telavive. Pese ter beneficiado de 21 cantos, de ter tido a bola quase de princípio a fim e de ter construído as melhores oportunidades, o Benfica saiu completamente amolgado do relvado, após ter escrito uma das páginas mais cinzentas da sua história (Jesus está a coleccionar várias nos últimos tempos) . É que ser goleado pelo Hapoel é algo que não tem qualquer justificação, pois estamos a falar de uma equipa que fez a sua estreia esta época na mais importante competição europeia, que nunca tinha ganho uma partida a este nível, que é oriunda de um país que, futebolisticamente falando, é de expressão reduzida e, já agora, possui nas suas fileiras apenas (alguns) jogadores medianos.

A época passada, o Benfica tinha um ataque que impunha respeito e uma defesa sólida. Na altura, mesmo quando a inspiração não era a melhor, a equipa lá conseguia encontrar maneira de ganhar os jogos. Agora, vê-se precisamente o inverso. O rendimento dos avançados é bastante inferior, o sector recuado mete água quase sempre e os jogos, mesmo quando os adversários atacam pouco, podem sempre ser perdidos. Até o elogiado trabalho de laboratório de há uns meses nas bolas paradas desapareceu. Agora, são os opositores que tiram partido desse tipo de lances.

Jesus, ontem, falou em falta de sorte. Tem alguma razão. E disse ainda que a equipa podia ter estado a jogar 3 ou 4 horas que dificilmente iria marcar um golo. Também deve ter razão. Aliás, nas pouco mais de 4 horas e meia que a equipa disputou fora nesta Liga dos Campeões... nunca marcou, pelo que a dedução parece correcta. O treinador que tanta gala fazia há uns meses com as suas profecias também acertou noutra coisa: o Hapoel ia decidir a sorte deste grupo. Só não foi capaz de prever quem seria o “bombo da festa”.

Sempre considerei que Jesus estava a exagerar quando dizia, de peito cheio, que a equipa podia vencer a “Champions”. Só ele, no meio das suas megalómanas visões, podia acreditar nesse desenlace. Aliás, um dos grandes problemas (talvez o maior) do actual Benfica é que o técnico tem metido as mãos pelos pés vezes sem conta. Jesus, depois de ter brilhado a temporada passada, convenceu-se que era uma espécie de clone de José Mourinho, que conseguia transformar em ouro tudo o que tocava e que iria ganhar vezes sem conta. Falou demais e mal (o que não foi propriamente uma novidade...), tomou opções erradas (dispensas e contratações) e começou a dar sinais de evidente desnorte quando surgiram as dificuldades. Agora, resume à falta de sorte os resultados negativos. Será que, no passado, os positivos também eram obra do destino? Afinal de contas, sempre se ouviu dizer que, num país em que Belenenses e Boavista foram momentâneas excepções, quem treina Benfica, FC Porto ou Sporting arrisca-se sempre a ser campeão...

PS - Sem Supertaça e Liga dos Campeões e com o Campeonato virtualmente perdido, o Benfica tem, desportivamente, de concentrar forças na Taça de Portugal, na Taça da Liga (gostava de ver, neste cenário, Vieira abdicar da competição) e na Liga Europa (acreditando que o apuramento para esta prova vai ser uma realidade). Contudo, financeiramente, não vejo maneira de o clube poder passar por Janeiro sem vender jogadores. Deixar algumas das figuras na Luz mais tempo só servirá para as desvalorizar.

PS1 – Depois de ter humilhado Nuno Gomes ao lançá-lo nos instantes finais do já resolvido embate com a Naval, Jesus foi ainda mais longe desta vez. Desvalorizou a confiança que o capitão ganhou com o recente golo e abdicou da sua experiência e liderança (mesmo no banco) numa partida que catalogou de final. Ele lá sabe porquê. Ou pensa que sabe...

Sobre a Metodologia da Derrota - Carlos Pringle

Escrever sobre as derrotas do Benfica é já um depurado processo metodológico. Aliás, sendo eu um metodólogo por defeito, este compasso de espera - não escrever após o 4-0 à Naval para escrever após mais três secas do Happoel - é disso prova. Poderia alegar uma estadia demorada na Polónia, mais precisamente em Lodz, para tratar de uma exportação de sabonetes com aroma a pera-abacate, mas não. Apesar de ser verdade, não me recorrerei deste subterfúgio menor. Evidentemente que preferi esperar pela derrota do Benfica para pegar na pena e deixar que os zéfiros pestilentos da ria de Aveiro, onde me encontro, me inspirem, accionando em mim o verdadeiro método de escrever sobre derrotas do Benfica.


Façamos de conta que este é que é o primeiro parágrafo. Para começar a versar sobre a normalidade benfiquista deste ano, nada melhor que uma afirmação contundente, do género meus preclaros conclubistas, preparemo-nos, que esta época vai ficar - e já está - na história pelas antipodais razões da época passada. Em quatro meses ruiu tudo: o trabalho edificado e as expectativas criadas. Esta já é mais uma época de um imenso desconsolo. Depois deverá seguir-se, uma rememoração das vezes em que tal já se disse e escreveu, como prova que o autor não é um arrivista. (Neste instante, o autor escusa-se a fazer links para todos os textos que já publicou neste espaço, salvo o primeiro, ainda pejado de fézada). Na antecâmara da conclusão vem uma frase forte, do género toda a gente sabe que os jogadores estão a fazer a folha ao treinador, demonstradora que o escriba sabe o que é o cheiro do balneário e que conhece ou tem uma fonte importante junto da estrutura do Benfica. Por fim, a recordação da mais recente vez em que se afirmou estar ciente do descalabro vermelho: terça-feira, no barbeiro existencialista, quando, de navalha encostada ao pescoço em acto de desfazer a barba, a ele se dirigiu, dizendo ò Fernandes, a desgraça começou na Supertaça. Assim termina o primeiro parágrafo.


No segundo parágrafo, recua-se no tempo uma semana e meia apenas para expressar a intensidade da comoção de Nuno Gomes ao marcar o quatro a zero à Naval, para referir o quão ela nos marca e, aproveitando a conjuntura, para a metaforizar numa imagem do Benfica de hoje. No qual Gomes, teimosamente, vai irritando o treinador [e conclui-se, depois da figura de estilo, com o reforço de uma ideia já aflorada, ora leiam lá o que vem a seguir] a quem os jogadores estão claramente a fazer a folha.


No terceiro parágrafo, o escriba mostra como põe a ferramenta da História ao serviço da previsibilidade do futuro, neste caso, na descrença de um bom resultado em Israel: refere ter sofrido que nem um cão quando a vinte e oito de Agosto de noventa e oito, o Benfica, jogando o apuramento para a fase de grupos da Champions, depois de ter vencido o Beitar Jerusalém por seis a zero na Luz, a dez minutos do fim do jogo "em Beitar" está a perder por quatro a um. O resultado final foi encurtado por João Pinto e o Benfica passou por um fio. Relembra também as boutades Jesuanas do “agora vamos ganhar a Champions”. Junta tudo isto e, na esteira de uma conclusividade lógica, reforça as piores previsões (porque, benfiquista realista e melancólico, só isto lhe resta fazer) usando a expressão qualquer benfiquista que se preze. Cá vai: qualquer benfiquista que se preze tem quase a certeza que nem à Liga Europa vamos e, se formos, vamos de vela tão cedo quanto possível. Basta relembrar que foi na Liga Europa que o canibalismo Jesuano começou – qualquer benfiquista que se preze (bis) sabe que se Jesus não tivesse sido acometido de uma imensa borra, que o levou a inventar com o Sidnei em vez do Fabinho (Luiz jogou a lateral esquerdo) e o Júlio César em vez do Quim, tínhamos seguido em frente, empatando em Anfield a uma bola.


No quarto parágrafo o autor sublinha os contornos humilhantes desta época, referindo que até o Sporting de Braga fez uma Liga dos Campeões melhor que a do Benfica, reafirma o carácter anedótico deste Benfica que, com maior ou menor dificuldade, já não se verificava desde os anos negros de dois mil e um, no tempo daquele senhor que conseguiu perder com o Gondomar em casa, com golo de Cílio Sousa, e alerta para o ardil que é o facto do treinador do F.C. do P. andar estrategicamente preocupado em defender o treinador do Benfica da mesma forma fácil que todos os Benfiquistas defendem que o treinador do Sporting o seja por muitos e bons anos.


No quinto e último parágrafo, o escriba reafirma a falta de condições do treinador – fim de linha, Jota Jota, fim de linha - e termina com um bocadinho de name dropping para dar estilo ao texto e para categorizar o grande dilema do Benfica deste ano: como dizia Jean Paul Sartre, no futebol, tudo se complica pela presença da equipa adversária. Como lêem, esta máquina de escrever já está mais oleada que os onze de Jesus. Coisa fácil, quando há método e lógica.

quarta-feira, novembro 24, 2010

Benfica: o dia em que Jesus teve razão. Ou nem por isso - Luís Sobral

Dizia Jorge Jesus depois de vencer o Hapoel na Luz, uma coisa deste género: atenção, esta equipa é boa, ainda vai ter importância nas contas do grupo.

Provou-se que tinha razão. Ou nem por isso.

Tinha razão porque ao vencer pela primeira vez na Liga dos Campeões, o Hapoel Telavive selou o adeus do Benfica à Liga dos Campeões e apurou Schalke e Lyon. Não tinha razão nenhuma quando dizia que os israelistas formam uma boa equipa. Longe disso, pelo menos pelos padrões da mais importante competição de clubes europeus.

Então que se passou com o Benfica?

Provavelmente muita coisa, a maior parte dela só compreensível para quem está lá dentro, dirigentes, treinadores e jogadores.

O que se viu foi isto: baixa intensidade, insensibilidade aos sinais do adversários, escassa confiança e, talvez mais importante, ausência de vontade de vencer.

De resto, este tem sido o traço mais característico do Benfica em 2010/11: parece cansado de ganhar, sem a garra da época passada.

Sejamos claro: o que decidiu não foi a qualidade dos jogadores, a organização, o valor como equipa, a sorte ou o azar. O que decidiu, em Israel, foi a vontade de ganhar. O Hapoel teve-a, o Benfica nem por isso.

O resto, o que explica este estado de alma, saberemos um dia mais tarde. Quando se tornar inevitável alterar alguma coisa.

Para já, Portugal ficou a saber que na segunda metade da temporada não terá equipas entre a elite europeia e provavelmente estará muito bem representado na Liga Europa. Bom para o ranking, péssimo para o orgulho benfiquista.

Que vergonha Benfica - António Magalhães

Quando as coisas não podem correr bem, correm mesmo mal.

O lance do golo do Hapoel foi um claro sinal do que esperava o Benfica até ao final do jogo. Cruzamento, cabeçada e a bola a ser desviada na nuca de David Luiz e… golo.

Mas o Benfica pôs-se a jeito. Na 1.ª parte, teve 11 cantos a favor e apesar de uma das suas especialidades ser os lances de bola parada a verdade é que tirou zero de vantagem dessas situações. Na 2.ª parte teve mais 10. Total: 21 No primeiro que teve, o Hapoel fez o 2-0.

Queixas da arbitragem? Há sim senhor. Kardec não estava fora-de-jogo quando assistiu Saviola para um lance de golo que foi anulado pelo árbitro por indicação do seu assistente.

Mas as queixas maiores tem o Benfica de si próprio, incluindo o seu treinador.

Não se percebe porque razão Jorge Jesus não apostou em Carlos Martins de início. A arma da meia distância não deveria ser desprezada em jogos em que muitas vezes a bola sobra para a entrada da área por força de um volume de jogo ofensivo que obriga o adversário a defender sempre perto da sua baliza.

Entrou já em fase de défice de confiança da equipa e procurou resolver as coisas sozinho. Também não ajudou.

Tal como nada acrescentou a prematura aposta no chuveirinho para Kardec e Cardozo. O paraguaio, ao contrário do que diz Jesus, não está a 100 por cento. É um jogador que precisa de tempo de competição para atingir bons níveis de performance.

Enfim, o Benfica foi uma desilusão. A Champions – grande objetivo no início da época - já foi e a Liga Europa carece de confirmação na última jornada.

E agora? Que terramoto estará para acontecer na Luz?

Quem assume a responsabilidade por este fiasco?

Rodrigo: the Benfica boy making his mark with Bolton - The National

Bolton Wanderers were already 4-1 up against Newcastle United last Saturday when they introduced 19-year-old Rodrigo Moreno as an 86th-minute substitute.

His seven minutes on the pitch were insufficient to earn him a rating in the following day's newspapers, but the pacey left-sided attacker made a tangible difference, winning an injury-time penalty which Kevin Davies converted to conclude one of the more surprising results this season.

Though he is yet to start a Premier League game, it was not the first time that Moreno has come from the bench to make an impact.

Introduced against Bolton's neighbours Wigan Athletic recently, he troubled the Latics by driving in from the right and was regularly picked out by fellow substitute Matt Taylor.

Moreno was unlucky not to score with his first touch, a volley on the diagonal which Chris Kirkland, the Wigan keeper, was grateful to gobble up.

Then, from exactly the same type of ball, he was incorrectly given offside when clean through.

Moreno added a cutting edge to an attack which appeared blunt before Owen Coyle took over as Bolton manager earlier this year.

"He is 19 years old, can play anywhere across the forward line, as a main striker or behind, and he can play in the wide areas", Coyle said.

"He's quick and exciting" Sandy Stewart, the assistant manager, added.

Johan Elmander, the Premier League's joint second top scorer with eight goals, Gary Cahill, Davies and coach Coyle may be the star names who propelled Bolton into the Premier League's top five, but much is expected of Moreno, the Brazilian-born Spanish Under 19 international. Given his pedigree, you begin to understand why.

Moreno was a Real Madrid player until he moved to Benfica on a five-year deal in July, as part of the Angel Di Maria transfer. The Lisbon giants sent him on loan to gain Premier League experience, but Bolton were chasing him long before he moved to Portugal.

Bolton Wanderers and Real Madrid may seem like an unlikely pairing, but they enjoy solid relations following past deals involving Fernando Hierro and Ivan Campo.

Both were coming to the end of their careers, while Moreno is an emerging star whom Real were reluctant to let go for less than €5 million (Dh25m).

That was too much for the Lancashire club, who have to cut costs, but long-time admirer Coyle, doggedly pursued Moreno.

The Scot finally got his man on a one-year loan deal, on August's transfer deadline day, by persuading him to join up with his former Real teammate Marcos Alonso, 19, the left-back who signed for £2m (Dh11.7m) a month earlier.

He too, was highly rated by the Spanish giants, who have retained a €5m buy-back clause.

Other factors helped Coyle. With a surfeit of attackers from one of the best youth systems in world football, Benfica were happy to let Moreno move and, with Coyle and his former teammate from Real's reserves enticing him to England, he eventually relented.

"Without a doubt, the conversations I had with Marcos had some influence on me coming here," Moreno said. "He spoke a lot about the club, the management, and the way people are and that was important for me. I want to repay the trust Bolton have shown in me and do my best to show my qualities."

It was a busy summer for Moreno. In July he played for Spain's Under 19s in the European Championships and scored the only goal for La Rojita - the "Little Reds" as opposed to world champions La Roja - in their 2-1 final defeat by France.

Coyle was delighted to get his man, if only for a season.

"We've been pleased with him, and we have to continue with that progress," Coyle said. "That involves hard work and when more chances come about hopefully he'll have that cutting edge to take them."

Bolton are aiming high for a top-six finish this season.

With their strikers performing so well and Moreno adding another dynamic option, they have an excellent chance.

Liga Ibérica: contra, claro - Luís Sobral

Fernando Gomes, presidente da Liga, admitiu que anda a conversar com responsáveis espanhóis sobre a possibilidade de haver uma prova mista, meio espanhola, meio portuguesa. E não disse mais.

Mesmo sabendo pouco, sou contra algo que se pareça com um campeonato a meias.

Por um razão simples: em Portugal deve haver um campeão português. A rivalidade alimenta-se de ganhar ao meu adversário de sempre, ao clube da minha cidade, da minha rua. Quanto mais perto melhor, sabemos todos.

Podia alinhar mais dez argumentos, todos emocionais. Todos os que interessam. Mas basta esse: precisaremos sempre de um campeão português.

Por outro lado, acho excelente que se façam experiências com clubes espanhóis. Ali jogam os melhores futebolistas do mundo. O futebol daquele país é mediático como talvez só a Premier League.

Seria adorável para clubes, treinadores e jogadores poder jogar em Espanha. Como?

Simples: fazer uma Taça da Liga ibérica. Na primeira fase as equipas jogavam no seu país, as quatro primeiras de cada lado jogariam entre si. Um ano a final seria em Portugal, no outro seria em Espanha.

As receitas de bilheteira subiriam, os direitos de televisão valeriam muito mais e as equipas e jogadores que estão em Portugal teriam promoção mundial.

Fundir campeonatos nem pensar. Uma Taça da Liga Ibérica, contem comigo.

A grande lição - João Gobern

É impossível não vibrar com a vitória, histórica, do Sporting de Braga frente ao Arsenal: numa época em que deixámos – por força de outros “futebóis” – desvalorizar os feitos de David contra Golias, em que veneramos de forma indiscriminada o poder e o armamento, em que os mais desfavorecidos mais parecem empecilhos que nos saem ao caminho, foi particularmente saudável este triunfo.

Desde logo porque não foi fácil, exigindo contenção e paciência, antes das duas cavalgadas de explosão de Matheus até às redes adversárias. Depois, porque veio provar que, como equipa estreante nestas andanças, o vice-campeão nacional demonstrou ser um aluno capaz de aprender rapidamente e de, já ao quinto jogo, saber pensar pela sua própria cabeça e causar algumas dores às cabeças alheias.

Dir-me-ão que o Arsenal tinha jogadores-chave lesionados. Mas não é essa uma das mais estranhas características da equipa comandada por Wenger? Alegarão que houve mexidas na equipa-base. Mas essas são voluntárias e o próprio Braga as fez, deixando no banco Mossoró e o debilitado Sílvio.

Defenderão que o Arsenal chegou ao Minho praticamente apurado e que deixou correr o marfim, pelo menos até saber que os rivais ucranianos já iam de vantagem alargada.

Mantenho a ideia de que a arrogância, mesmo aquela que se traduz na lentidão de processos e na ausência de uma pressão mais alargada, se combate com inteligência, com determinação e com a consciência das próprias lacunas e mais-valias.

Foi o que fez o Braga, com uma perfeição que nem sequer dá azo a que se evoque a sorte do jogo: primeiro começou a matar lentamente o fantasma de Londres e da meia dúzia; depois, aos poucos, foi contrariando a maior posse de bola do Arsenal com crescente acutilância; finalmente, soube aproveitar o adiantamento do adversário – e a lesão de Eboué, ignorada por um técnico que descuidou as compensações – para jogar o seu maior trunfo, as transições rápidas, personificadas num foguete que passa, num segundo, dos pezinhos de lã para o pé-canhão.

Foi, insisto, um momento para recordar, tanto mais que a campanha interna do Braga está longe do imaculado. Virada à Europa, quase apetecia pedir que a campanha começasse agora – da derrocada londrina, logo na estreia, poucos se livrariam; mas acredito sinceramente que este Braga não voltaria a capitular de forma tão evidente – e porventura decisiva – diante do Shakhtar. Haja sonho. Mas, mesmo sem milagre, com a experiência acumulada, este Braga de Domingos Paciência habilita-se a fazer mossa na Liga Europa. Que assim seja.

PS – Hoje, o Benfica joga a “finalíssima” israelita. Pena não ter visto o jogo de Braga: em humildade, competência e concentração, tinha ali um belo exemplo.

Jesus - Três pontos fazem dele um Rei entre os Judeus - Pedro Candeias

Este Jesus tem pouco de rei mas muito de mestre (assim o dizem). Mas não é um mestre-carpinteiro, como o Jesus da Bíblia, mas um mestre da táctica como "A Bola", a bíblia do desporto, sugeriu um dia - sugestão, aliás, aceite pelo próprio sem pudores ou modéstias. Agora, hoje mesmo, é o dia em que (Jorge) Jesus tem de justificar os elogios - e os auto-elogios - perante uma plateia de judeus. E já se sabe o que aconteceu a Jesus (Cristo) quando se disse o rei dos judeus... Para evitar carregar uma cruz para Lisboa, JJ tem de conquistar os três pontos frente ao Hapoel, em Telavive. Se o fizer, não fará mais do que a sua obrigação, que o Hapoel está a anos-Luz das escrituras do Benfica; se o não fizer, o treinador dos encarnados pode começar a cair com o Carmo e a Trindade. Comecemos por aquilo que Jesus não quer.

SE TUDO CORRER MAL "É quase uma finalíssima", diz Jorge Jesus. Correctíssimo. Em causa não está só a meta de passar aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões que uma vitória com o Hapoel manterá concretizável; em causa está uma época inteira. Imaginemos um cenário de apocalipse para Jesus: o Benfica perde (escandalosamente) em Israel e vê a Liga dos Campeões - que ele disse querer ganhar - por um canudo. Assim, de repente, um dos objectivos mínimos do clube vai à vida e à falta de êxito pessoal soma-se um fracasso financeiro e desportivo. Falhar a fase seguinte significa deixar fugir 3 milhões de euros endereçados pela UEFA e comprometer negócios em marcha. É simples: sem Champions não há contratações na reabertura de mercado (Janeiro) e as probabilidades de David Luiz ou Fábio Coentrão saírem crescem. Porquê? Porque o campeonato está tremido (dez pontos de distância para o FC Porto) e o Benfica tem gente subaproveitada - Sidnei, César Peixoto e Fábio Faria (lembram-se deste?) - que poderá tapar buracos em competições menores, como são a Taça da Liga ou a Taça de Portugal.

E SE TUDO CORRER BEM? Mas como também não estamos aqui para agoirar ou fazer papel de Judas, há a (enorme) possibilidade de tudo correr bem. Porque: 1) o Hapoel, e já foi dito atrás, é de longe a equipa mais fraquinha do grupo, com um ponto, dois golos marcados e oito sofridos; e 2) o Benfica parece estar em condições de apresentar um onze ideal para este jogo não decisivo mas importante. Vamos ao plantel: não há futebolistas de primeira linha lesionados já que os magoados, Airton e Weldon, são opções secundárias (bom, no caso do avançado trata-se mesmo de uma escolha terciária); e não há castigados, pelo que Gaitán, expulso em Gelsenkirchen, pode voltar a jogar na Champions. Mas a boa nova, a melhor de todas, é o regresso do homem-golo encarnado. Que nem se tem em grande conta.

SE ELE NÃO É A ESTRELA, QUEM SERÁ? Dois meses depois, ei-lo de volta à acção: Oscar Cardozo. O avançado lesionou-se frente ao Schalke 04 e Jesus quis recuperá-lo para o clássico com o FC Porto (0-5, no Dragão) - não deu e a coisa foi adiando. Até segunda-feira, quando o nome dele apareceu na convocatória para o jogo em Telavive. E ontem, Cardozo dirigiu-se aos jornalistas na conferência de imprensa em Israel. "Não penso dessa maneira. Não me sinto uma estrela ou o salvador do Benfica", disse o tipo que tem 15 golos em 29 jogos na Europa pelo Benfica. E disse o bombardeiro que em 2009/19 fez 38.

Percebe-se, portanto, a resposta de Jesus quando questionado sobre a titularidade/utilidade de Kardec: "O Cardozo não tarda está aí." E compreende-se, também, a insistência do técnico com o avançado nestes últimos treinos. Ele é o ponta-de-lança de Jesus.