Na opinião de José Eduardo Bettencourt, que classifico de verdadeiramente arrasadora, as pessoas que não fazem parte da 'corte do Sporting' já perceberam que o desinvestimento se tem agravado nos últimos anos, travando o reforço do futebol e alimentando o aparecimento de 'minorias pseudo-revolucionárias' que actuam muitas vezes pelo próprio negócio e que não têm qualquer representação no universo do clube, sobre quem têm sido cometidos 'actos terroristas todos os dias'.
Violentas declarações para vários destinatários, produzidas um dia antes da tentativa de invasão que rancho de bandalhos tentou levar por diante em nome de nada, a não ser o insulto e a agressão. Quer-me parecer que o presidente leonino, embora ignorando os contornos da arruaça, suspeitava que algo de muito feio estaria em preparação, convidando a ignorar uma 'minoria ruidosa e desestabilizadora' que não se esgota, obviamente, no desatino da chusma de claqueiros. O que se observou em Alvalade não foi obra do acaso, muito menos reacção espontânea sobre o resultado do jogo com o Marítimo. Nota-se ali a influência de dedo maroto, o que mais uma vez acentua a suspeita de residirem lá dentro os mais intensos focos de discórdia, perturbadores do normal funcionamento de um grupo directivo sem tempo para reflectir nem condições para trabalhar.
Qual então a tragédia que ajude a explicar tão estúpida atitude por parte de franja malcriada de adeptos? Maus resultados? Só acredita nisso quem quiser... Diz Bettencourt que quanto mais conhece o clube mais vontade tem que Paulo Bento fique. Com esta sentença, não só absolve o treinador como se coloca ao lado dele para o que der e vier...
Já por mais de uma vez o presidente sportinguista se serviu do Benfica como muleta para divulgar as suas teses, ora com ironia, ora com sinceridade. Agora, apesar da quase sempre pouco saudável rivalidade entre os vizinhos da Segunda Circular, ousou, porque de uma ousadia se tratou no meu entendimento, endereçar elogios que julgo sinceros a Luís Filipe Vieira, e à Direcção por ele encabeçada, por ter sido capaz de mobilizar um conjunto de investidores para ajudar a salvar o emblema da águia.
Isso é unanimemente reconhecido, mas não caiu do céu. Gestões irresponsáveis deixaram o Benfica à beira da ruína. Roubaram-lhe a honra, despedaçaram-lhe a imagem e hipotecaram-lhe o futuro.
Luís Filipe Vieira chegou à Luz e descobriu uma instituição espezinhada e debilitada, ferida de morte por sucessivos atropelos. Desde então perdeu-se a contagem das batalhas que teve de travar em longo e desgastante combate que se arrasta há pelo menos oito anos. Objectivos? Recuperar a credibilidade, reactivar o processo de crescimento, preparar o futuro com a projecção e construção de infra-estruturas funcionais e modernas e, agora, a última e porventura mais importante fase do projecto: reconquistar o sucesso desportivo através de sério reforço da equipa de futebol.
O quadro que hoje se depara a Bettencourt deve ser um mar de rosas se comparado com o cenário de desolação que Vieira encontrou quando, para o bem e para o mal, aceitou a presidência do Benfica. Nem tudo lhe terá corrido de feição e nem tudo o que fez foi bem feito. Teve avanços e recuos, inimigos ferozes, adivinhou armadilhas e resistiu a traições. Como? Uma questão de liderança! Eis a diferença. Vieira sempre foi um dirigente de convicções. Desde o primeiro dia do seu magistério ficou claro o nome de quem mandava. A Bettencourt falta-lhe reclamar o respeito que lhe é devido, impor a sua autoridade e... preparar-se para ventos e marés... O que se passou em Alvalade na noite de anteontem deve ser visto como um desafio ao seu poder de comando.