terça-feira, dezembro 06, 2005

O 1º Debate

Ponto Prévio - Estes debates higienizados que agora inventaram são pão sem sal.
Esta coisa do falas tu, depois falo eu, sem qualquer interrupção, tira-me do sério.
Isto não são debates, mas sim declarações políticas alternadas dos dois pseudo-contendores.
Que saudades do mítico debate Soares/Cunhal do célebre "olhe que não, olhe que não", com o Joaquim Letria e o Mensurado (ao que julgo) a moderar e a fumar (não sou assim tão velho, mas revi na RTP Memória).
As diferenças para esse tempo são colossais - lembro-me do Letria iniciar o debate a proclamar que teria a duração previsível de 2 horas, mas que podia demorar o tempo que os intervenientes quisessem.
Voltando ao impropriamente designado debate, direi que foi mais do mesmo - muito tacticismo, pouca vivacidade e nenhuma novidade.
Cavaco e Alegre lideram os respectivos espectros políticos - Cavaco lidera no global e não tem adversário à direita - e nao estavam dispostos a cometer erros que poderiam revelar-se fatais, fazendo-os perder o capital de simpatia que já alcançaram.
Assim, tudo á defesa, sem rasgos, medindo as palavras e o seu sentido possível.
Cavaco no seu estilo austero que dói só de olhar, afirmou-se, uma vez mais, como Presidente Interventivo, ou seja, no desenvolvimento do seu conceito de cooperação estratégica com o Governo, revelou que pretende comandar o País como bem enfatizou Alegre no seu momento mais positivo do debate.
O grande Timoneiro, o homem do leme, o homem providencial, o D. Sebastião assim será Cavaco.
Aquilo que Cavaco apresenta e diz é um programa de Governo, quiçá procurando corresponder e capitalizar a imagem de homem salvador.
Todavia, tal extravasa e muito os poderes do PR. Cavaco joga com a crise e a necessidade bem lusa do surgimento do tutor providencial que tudo fará e tudo resolverá.
Não o fará, nem o pode, sequer, constitucionalmente fazer.
Alegre continua a ser um poeta de excepção.
O seu discurso é mais sentimental do que político. Aliás, no discurso político Alegre é fraco e titubeante.
Alegre tem, apenas, uma vaga ideia dos dossiers e apregoa generalidades quanto á resolução dos problemas.
Tem um discurso simpático e uma figura de Avo da Heidi que cativa. Depois junta a isto a Marinha Grande que o PS lhe proporcionou (Marinha Grande constituiu para Soares a mola decisiva para passar á segunda volta em 86 - foi agredido) - retirou-lhe o apoio quando antes o havia incentivado a apresentar-se como candidato.
Este parece-me o grande trunfo de Alegre - passar a imagem que corre por fora das máquinas partidárias e do sistema.
O debate não foi ganho por ninguém - ninguém o queria ganhar, ambos, apenas, não o queriam perder. Mas, Cavaco retirou mais dividendos. A forma como os debates estão construídos favorece-o.
Sem confronto directo, Cavaco refugia-se, pouco diz e ganha ou por outra não perde votos.
Alegre não percebeu ou não quis perceber isso - limitou-se a gerir, não afrontou Cavaco e procurou demonstrar sentido de Estado para ganhar votos ao Centro.
A única intervenção de Alegre marcadamente ideológica centrou-se na Guerra do Iraque e por aí se ficou.
Aliás, espelho fiel de tal radicou na circunstancia de as diferenças entre esquerda e direita não terem emergido.
Tudo como dantes, Quartel-General em Abrantes.

1 comentário:

carlos disse...

Pois é. Chamar debate ao que se passou ontem na Sic entre Cavaco e Alegra é o mesmo que por um homem e uma mulher lado a lado a masturbarem-se, afastados 10 metros, e, no final, dizerem um para o outro: "Que grande foda!".
Quando me sentei (ou melhor, deitei no sofá) em frente ao televisor para assistir ao primeiro grande "debate" televisivo entre candidatos, pese embora soubesse das regras apertadas que regem os mesmos, sempre pensei que, pelo menos, encontrasse algum pomo de discórdia entre ambos, algum "frisson". Mas não. Aliás, não encontrei um único tema em que, verdadeiramente, não estivessem de acordo, desde a OTA à Justiça, passando pelo Iraque e pela indigitação do Santana como 1º Ministro.
E, então, também eu invoquei o célebre debate Soares-Cunhal, do "olhe que não..." que tive a felicidade de assistir em directo -pois é, os anos já pesam.
Mas também não tenhamos ilusões: nestes debates entre candidatos à Presidência da República pouca matéria haverá para discórdia, pois que qualquer que seja o candidato que venha a ser eleito, poucas diferenças haverá no exercício do mandato.
É que, no nosso sistema político-consitucional, a figura do Presidente da República não passa de uma figura decorativa, de mera representação, dispensável, até - na minha opinião - que qualquer um saberá exercer.
Por isso, desde Eanes a Sampaio, passando pelo Soares, sempre tem havido uma gritante similitude entre os respectivos mandatos, e todos têm sido eleitos para 2º "volta" sem qualquer polémica.
Não espero, pois, muito mais dos restantes debates que se avizinham, a menos que algum dos candidatos pretenda quebrar, ostensivamente, as regras instituídas e resolva fazer verdadeira chicana, à semelhança do que, em tempos mais recentes, Basílio Horta fez com Mários Soares - que só lhe faltou cuspir na cara.
E de entre todos os actuais candidatos, talvez o Soares se prepare para fazer coisa parecida com o Cavaco, quando chegar a vez de se sentarem lado a lado, a masturbarem-se.....