quarta-feira, outubro 18, 2006

Artigo de Opinião do Condómino Carlos

PORQUE SOU DO SCP

Em dois artigos de opinião já publicados, o Condómino Cavungi explicou porque não era da selecção e o Condómino Fura-Redes relatou o seu percurso como adepto do FCP.
Fazendo a síntese dos dois artigos, inspirei-me para escrever a minha crónica, que subordino ao tema “Porque sou do SCP”.

Sendo eu nortenho, natural de uma localidade situada a 30 Kms do Porto, a primeira questão que se colocaria era “porque não sou do FCP?”.
Devo confessar que, quando muito pequeno, cheguei a ser adepto do FCP.
O que orientou, na ocasião, essa minha preferência foi a simples razão de o meu pai fumar cigarros “PORTO” – uns maços de tabaco azuis claros com a imagem da Ponte da Arrábida estampada no invólucro.
Recordo-me, contudo, que o FCP era uma pequena equipa de província que me desiludia constantemente com os resultados e era por isso imperioso mudar de clube se queria ter alegrias.
Para além disso, o meu pai tinha mudado de marca de tabaco, para os inenarráveis “Negritos”, tendo mesmo acabado por deixar de fumar.
Já sei que vão dizer: “Se és do Norte, devias apoiar uma equipa nortenha, e, ainda assim, o FCP é a maior equipa do Norte!”
Certo, mas também sou natural de uma terra que ao contrário se lê RAVO e nem por isso sou “gay”.
Que clube, então, deveria escolher?
O Benfica tinha, já na ocasião, 6 milhões de adeptos, razão mais do que suficiente para não querer ser também “mais um”.
Sempre gostei de ser diferente e achei que ser adepto de uma equipa que não fosse o Benfica, usar o relógio no braço direito e – mais tarde - não pôr açúcar no café seria suficiente para vincar a minha originalidade.
Jogava, nessa época, no SCP o grande Yazalde, que, para quem não é desse tempo, era uma espécie de Jardel do anos 70, para melhor.
E na baliza havia o Damas, que saltava de um lado ao outro da baliza como se tivesse molas nos pés.
A tudo isto acrescia a explicação racional: “É o verdadeiro clube de Portugal, pois que é Sporting Club de PORTUGAL!”
Foi o suficiente para fazer a minha opção clubística.

Passado pouco tempo, vi que tinha feito asneira.
O SCP, ainda ganhou um ou dois campeonatos, mas depressa entrou na crise dos 19 anos, ao passo que o FCP começava a ganhar campeonatos atrás de campeonatos.
Como quem espera a sua vez para pagar num hipermercado, muda de fila porque a fila onde está não anda e depois verifica que a fila para onde mudou ficou encravada, assim me sentia eu – com a agravante de, na ocasião, nem sequer haver hipermercados no nosso País.
Mas já era tarde para mudar.
Nestas coisas da preferência clubística manda, como se sabe, o coração, e o meu - contra-natura - estava já verde.
Tinha já entrado também na mística sportinguista, uma mística diferente da dos lampiões e dos andrades, que dificilmente a conseguirão compreender.
Os lampiões porque se afundam todos nessa voracidade dos 6 milhões e na mania de que ser maior é ser melhor, os andrades porque se confinam ao seu bairrismo.
Ser sportinguista é ser diferente, é, como dizia o Luís, “nunca contentar-se de contente; é um cuidar que ganha em se perder”…
É ter Futre, Figo, Ronaldo, Quaresma, Moutinho e Nani e deixá-los partir…
É saber ser grande na derrota e pequeno na vitória.
É cor, juventude e originalidade…
É ter as mais bonitas mulheres de Portugal…

Por isso fiquei sporténgue e sporténgue me mantenho com muito orgulho.

21 comentários:

vermelho disse...

amigo Carlos:
valeu a pena esperar!
brilhante artigo este.
saboroso e pontuado por uma prosa de eleição.
sentido e apaixonado, sem deixar de ser racional.
em suma, um texto que é o espelho da alma do seu autor.
abraço

vermelho disse...

p.s.
essa de sempre teres gostado de ser diferente só pode ser exercício literário...
abraço.
(também uso o relógio no braço direito)

VermelhoNunca disse...

Amigo Carlos: após o Carnaval que foi o artigo do derrotado Cavungi, nada melhor que um artigo de elevada qualidade de um habitante de uma terra bem conhecida pelo seu Carnaval. Define bem o que é ser do Sporting. Clubes de bairro, ou adeptos do tipo rebanho não se adequam à nossa maneira de ser.
Saudações Leoninas!

VermelhoNunca disse...

Amigo Vermelho, também uso o relógio à direita...embora me pareça que o seu relógio ontem parou no tempo, após uma vergonha daquelas...

cavungi disse...

Amigo Carlos,
Parabéns.Um excelente artigo de um sportinguista equilibrado.Hoje, percebo porque é tão diferente dos adeptos lagartos, que eu, infelizmente, tão bem conheço.
Saudações Benfiquistas.

VermelhoNunca disse...

Amigo Cavungi, mantenha a calma, sei que o dia está dificil de passar, mas outros melhores virão.

Fura-redes disse...

Brilhante artigo do Camões deste espaço.
Agora percebo porque te tratam por J.C.
Afinal és o Jovem Camões.
Percebi, também, agora porque andaste desaparecido nos últimos dias escapando às minhas prementes questiúnculas.

Como sempre desconfiei tens bons princípios.
Pena que depois BORRES a pintura toda, sendo certo que nunca o fazes à tarde!!
Começaste a ser simpatizante do FCP, devias, assim, ter continuado, pois neste momento tinhas mais razões para exibir a tua aplicação finaceiro-dentária.
De qualquer modo já sei que no próximo fim de semana o resultado que se verificar em Alvalade não te deixará muito albalado, seja ele qual for.
Pela primeira vez vi-te dizer que eras Nortenho. Gostei.
Somos provincianos, bairristas?! é vero, mas também não me importo.

Nunca reparei que, TAMBÉM, usasses o relógio na mão direita.
Está criado o código da nossa congegação. Espero que o Idanhense também siga tal ritual.

Todavia, uma coisa me preocupa, que é essa coisa de tu quereres ser diferente.
Tenho muito receio dessas manias, dessas modernices, dessas ideias.
Sendo certo que 88% da população portuguesa é heterosexual o meu amigo estará por acaso a pensar em levar a diante essa sua ideia?
Espero bem que não.
Também espero que não seja a nova Greta Garibaldi, que tem andado afastada destes palcos.
Ou quererá antes, o que será mais consentâneo com a imagem que tenho de si, enveredar pela poligamia?

E já agora, se as mulheres do Sporting são as melhores , quem é que trata delas?
Posso-te dar um exemplo, a Isabel Figueira é sportinguista, era boa, até à última vez que a vi, Há cerca de meio ano, e andava a ser TRATADA por um gajo do FCP.

Abraço e CONTINUA.

estar_vivo_e_o_contrario_de_estar_morto disse...

F****.. eu tb uso o relógio no braço direito e não sou gay...

VermelhoNunca disse...

E da Marisa Cruz condómino Fura-Redes, quem trata dela é o também portista João Pinto.

vermelho disse...

amigo fura-redes:
excelente comentário, mas deixa-me acrescentar que nunca de tarde e não antes de um café e de um cigarrinho...
abraço

Fura-redes disse...

Isto não me está a cheirar nada bem.
Abraço.

Holtreman disse...

Foi por isto que não aceitei escrever nenhum artigo de opinião. Por sempre pensar que o Carlos o fizesse. E como se viu, ainda superou as melhores expectativas. Excelente.

vermelhosempre disse...

Porque Não sou do Sporting...

Porque odeio tudo o que não seja vermelho, ou melhor, porque detesto tudo o que é lagarto e tripeiro, isto é, tudo o que seja Verde e Branco e Azul e Branco.

Saudações

vermelhosempre disse...

Ah, é verdade, tb uso o relógio na mão direita... também gostava muito de tratar da Isabel Figueira.. ui ui, se gostava!!!!

vermelho disse...

amigo Holtreman:
uma coisa não invalida a outra.
ainda tenho esperança que o faça.
não custa nada, é apenas um pequeno esforço.
abraço

Sousa disse...

caro Carlos aceite os meus parábens pela magnífica prosa com que nos brindou.
saudações cordiais e de estima

Holtreman disse...

Vermelho,
Depois deste artigo do Carlos, seria extremamente ingrato para mim ser o seu sucessor. Não poderia manter os padrões de qualidade. Por isso, vou esperar que o Sr.Nunca nos volte a brindar com um artigo e aí sim, já terei condições de escrever qualquer coisa.

VermelhoNunca disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
VermelhoNunca disse...

O amigo Nunca, condómino Holtreman, está sem paciência para vos aturar( refiro-me apenas a alguns condóminos, atenção), portanto não espere que eu volte à carga tão cedo. Quando possível contribuirei com os meus posts.

vermelho disse...

amigo vermelho nunca:
conto contigo para a semana.
abraço

Prof. Venceslau disse...

Caro condómino Carlos:
Parabéns pelo seu momento. Embora agora, para não ser vituperado e destratado, me limite a espreitar as altercações com os vizinhos do condomínio, confitente sou ao afirmar que cheguei a ficar emocionado com candura emprestada à descoberta da sua “vocação” sportinguista. Nessa fase embrionária, não ouvia uma narração tão pungente desde o episódio do “Calimero” em que lhe roubavam os berlindes. Também eu, em petiz, comecei por gostar do “Ritz”, clube dos meus sonhos, até que o meu pai, numa das greves da Tabaqueira, fumou esporadicamente “2002 Control”. Creio que se o seu querido pai, por acaso, tivesse fumado “Kentucky” V. Exa. teria logo optado pelo seu Sporting (o mesmo sucederia se tivesse mirado um cromo do Manoel que, ao que dizem, não usava relógio).
Desventuradamente, e ao contrário de V. Exa., não tenho as raízes aristocráticas dos seus amigos verde-e-brancos, pergaminhos esses tão patentes nos distintos Presidentes e Conselheiros Sousa Cintra e Jorge Gonçalves, ou a beleza sublime de uma “Celeste Russa”. É pena, embora lhe diga que a falta de refinamento do Benfica é tão verdade como a pretensa polidez do Sporting não passa de um “trompe d’oeil”. Nisto de “futebóis”, caro amigo, são todos iguais.
Também não uso grilo à destra. Porém, não se preocupe V. Exa. por ser descoincidente. O direito à desconformidade é um valor intrínseco à sã vivência em confraria, seja essa diferença comedida ao uso do relógio, às calças justas ou à livre orientação sexual. Nunca fiquei “encravado” na bicha mas compreendo a sua ideia.
Parece-me que V. Exa. teve um período qualquer de amnésia. É que passa do Yazalde e de esparsas vitórias do Sporting para as vitórias quase habituais do Porto, saltando uma década onde o Benfica acumulou sucessivas vitórias e ainda o período Eriksson, nos idos de 80 onde V. Exas. só se desembaraçavam no atletismo.
O fim poético agradou-me deveras. Porém quão longe nos apartamos da realidade. Que é feito dos estados de alma e da sublime exaltação quando aquilo que expressamos deixa de ser apenas tangível aos sentidos? Será poética a afirmação da negação da realidade. V. Exa. acertou quando disse que não quis ser do Benfica para não ser apenas “mais um”. Quis ser diferente porém é único. O único sportinguista com o “fairplay” que proclama num clube grande na derrota, muitas vezes pelos resultados, e pequeno na vitória, humilhando e amesquinhando os vencidos.
Gosto muito de si, caro Sr. Carlos.
“A gente vê-se” e não insista nos chavões do "muito orgulho". Olhe que o orgulho anda a dar para muitas paradas.
Fique bem e deixe de fumar.
Prof. Venceslau